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23 de Setembro de 2017

Não sou coxinha nem mortadela. Eu me sinto uma isca de fígado

Desabafo de um eleitor comum

Luiz Cezar Quintans, Advogado
Publicado por Luiz Cezar Quintans
ano passado

Eu me sinto indignado com tudo que está acontecendo no país. É claro que a principal culpada de tudo é a crise econômica. Afinal, as pessoas não ligam muito para o que os governantes estão fazendo, quando há trabalho e renda.

O problema é que não me sinto nem coxinha nem mortadela. Junto com a crise econômica se instalou, no centro do poder, um cabo de guerra onde existem pedidos de cassação de mandatos de deputados, senadores e até de presidente. A cada novo fato a crise política aumenta mais.

Nem coxinha nem mortadela Eu me sinto uma isca de fgado

Paralelamente a isso tudo, a Polícia Federal, lá em 2009, começou a investigar o deputado José Janene e com o andar da carruagem, em 2013 chegaram até o doleiro Alberto Youssef, que está preso. Com as delações, as coisas tomaram um vulto tão grande, que as notícias sobre a Lava-jato (nome batizado em uma das fases do inquérito 714/2009, que investigava outro doleiro que possuía um posto de gasolina) passaram a ser conhecidas pela maioria dos brasileiros, por envolver tráfico de drogas, mercado paralelo de câmbio, corrupção de políticos e de agentes públicos, fraudes contra Petrobras, grandes empreiteiras, superfaturamento de serviços, financiamento ilegal de campanhas, doleiros, marqueteiros e um monte de laranjas, contas offshore etc. As investigações foram e estão desencadeando uma série de fatos, revelações, condenações e, na esteira da busca da verdade real, apontam para crimes contra a administração pública, abuso de poder, certeza de impunidade, tentativas de barrar as investigações etc.

A maior dificuldade na crise política é que muitos dos políticos que estão sendo julgados pela opinião pública e são os mesmos que julgarão outros políticos que têm as mesmas impressões da opinião pública. A considerar uma lista de doações de uma única empresa, entre doações espontâneas e doações obrigatórias para as campanhas políticas de partidos, deputados e senadores, verifica-se mais de duzentos nomes envolvidos, sejam de esquerda ou de direita. Em resumo, o grosso da população não se identifica com ninguém.

Durante esse processo de investigação muitas delações premiadas foram firmadas por gestores públicos, executivos, doleiros etc., além de parentes, cônjuges e empregados dos envolvidos. Do que se torna público, se percebe que não sobram partidos, não sobram pessoas, não sobram lados. A situação faz lembrar Cazuza: A piscina está cheia de ratos e as ideias não se correspondem com os fatos (adaptação da letra de “O tempo não para”).

Com esse clima de acusações recíprocas, não é o desmantelamento das instituições que preocupa, mas, sim, o descrédito. O país está dividido politicamente. Entretanto, muita gente não tem lado. Muita gente não está apoiando este ou aquele (futuro) candidato. O Brasil está simplesmente repartido em diversos pedaços, sem líderes virtuosos. A bandeira dos cidadãos de bem é a “anticorrupção” e, por óbvio, a melhora da situação econômica do país. Todavia, nesse lamaçal podre de revelações, o cidadão comum continua procurando, mas, não encontra, quem efetivamente apoiar. E neste aspecto, a situação faz lembrar Whitney Houston: Todo mundo procura por um herói, porque as pessoas precisam de alguém para se espelharem (tradução da letra de “Greatest love of all” composta por Linda Cree e Michael Masser).

Não há planejamento, não há lideres, não há agenda econômica nem política, não há mais governabilidade!

Não me sinto nem coxinha nem mortadela. Mais pareço uma isca de fígado, que recebe espetadas de todos os lados. Quem me preparou hoje vive de uma aposentadoria miserável e aqueles que me querem expõem tantas fragilidades que a isca de fígado vai acabar sendo esquecida no final do processo e jogada no lixo do poder, da corrupção e pior: do descaso!

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